Inezita Barroso dá aula de "caipiragem" durante gravação de DVD

Cantora e apresentadora falou sobre a falta da poesia caipira nas composições atuais

Inezita Barroso canta com as mãos. Numa mesma canção, suas mãos afagam o ar, como se ele até fosse bebê recém-nascido, na mesma proporção em que corta com fúria de amante traído o invisível com uma adága de carne e osso. Compreensível: não simplesmente solta a voz, mas interpreta as canções como se até fossem textos teatrais. Apesar de passar mal durante a gravação do seu primeiro DVD em Campinas, e precisar abandonar o palco antes da hora, a dama da música caipira esteve brilhante.

Não foi tão falante quanto nas gravações do “Viola Minha Viola”, mas presenteou a plateia com bons causos caipiras. Também se mostrou maestrina ao contá-lo, com a levada de quem nasceu no Interior. Um deles, bem hilário, antecedeu a canção “Bonde Camarão, de Cornélio Pires. Outro, reviveu o momento em que passou num estúdio no Rio de Janeiro ao gravar “Ronda” e ainda contou um pouco sobre a vida de José Fortuna. “Eita homem tinhoso. Uma inteligência incrível”, brincou.

Abriu o show com “Boiadeiro Errante”. Mesmo com aquele vozeirão, foi difícil para cantora se sobressair ao entusiasmo da plateia. Os espectadores cantaram sem medo de represálias. Quando um sucesso pintava no ar: “Colcha de Retalhos”, “Flor do Cafezal”, “Ronda”; a cantora tomava folêgo extra para dar conta do recado. Conseguia, intimidando dessa forma o público em tamanho frenesi.

Vez ou outra, obrigava-se a uma pausa ligeira para se refrescar com água. Na volta, além de outras canções emblemáticas, como “Caipira de Fato”, “Baldrana Macia” ou “Perto do Coração”; buscou em palvaras pensadas ao sabor de uma pausa estampar o orgulho de ser tão caipira. Ao fazer as vezes de folclorista, propor-se a dar uma pequena aula sobre folias de reis. Após a explanação, cantou um hino de reis.

Quando menos esperava, um fã aflito gritou da plateia: “E a marvada pinga?”. Inezita Barroso, em tom de farra, o repreendeu sem pestanejar: “Ela é a sobremesa! Você está bem apressadinho...”.

A cantora
Antes de entrar no palco, Inezita Barroso permaneceu sentada durante todo o tempo no camarim. Era a estampa da serenidade. Ao se munir da fama que prega: “o caipira não perde a hora”, Inezita Barroso aceitou conversar com a reportagem do EPTV.com, mas: papo breve. Não fugiu das perguntas, nem tampouco alterou a voz quando algo a irritava (ou incomodava) na pergunta. A seguir, o internauta aprecia trechos deste papo caipira.

EPTV.com – A senhora mantém um repertório intacto há anos. O motivo de não gravar algo novo está ligado à falta de compositores da música raiz?
Inezita Barroso –
Existem bons violeiros. Há uma geração nova de tocadores de viola que está vindo que é muito boa. O que está faltando é a poesia. A poesia está fraca. E o forte da música caipira é justamente esta poesia. Mas ela virá novamente. A esperança é a última que morre, né?

EPTV.com – Pode ajudar a geração de novos compositores e revelar quais os segredos desta poesia caipira?
Inezita Barroso –
Simplicidade. Só. Se enfeitar muito, atrapalha.

EPTV.com – O termo "sertanejo univeritário" a incomoda de alguma maneira?
Inezita Barroso –
Não. Não conheço bem, mas pelo que sei não tem nada de novo. Não me irrita, não. Não tem raiz.

EPTV.com – Calar a viola da vida de Inezita Barroso já passou por alguma fase de sua vida?
Inezita Barroso –
De jeito nenhum. Só quando eu morrer. Agora não sei se está perto ou longe. Demorei muito, foi muito difícil chegar até aqui. Por isso, não vou entregar nada de mão beijada para ninguém.

EPTV.com – Não encontrou ninguém para segurar com tanto afinco a bandeira da música caipira?
Inezita Barroso –
Até agora, ninguém. Se bem que minha bisneta Luana, de 10 anos, vem por aí. Já está aprendendo a tocar violão, tem uma voz linda e até já compôs um musiquinha na escola. Chorei tanto quando escutei. É melhor não falar muito porque estraga, né?


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