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Em busca de outras notas: saxofonista Lívia Gastardeli conta sua história

Artista de Hortolândia está à procura de patrocínio para estudar nos Estados Unidos

04/06/2011 - 11:02

ViaEPTV.com - Tiago Gonçalves

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Sob o olhar nada curioso de Aline, a irmã, e Dalette, a amiga; Lívia Gastardeli afaga o saxofone, feito mãe quando recebe o bebê dos braços da enfermeira. Não foi sempre assim: no começo da relação, buscou evitar a cria. Não tinha tino para o instrumento, passou pela sua cabeça. Contudo, as paixões também tomam dose de reviravolta e mudam de sabor. Confidência: a saxofonista de Hortolândia se enamorou pelo instrumento. Tornou-se sua confidente. Só que de uns meses para cá, os dois passam por apuros. Lívia recebeu o aval positivo de uma escola norte-americana para estudar, mas não tem condições de se manter no País. Está em busca de patrocínio.

Antes de conhecer o hoje da saxofinista, de 23 anos, faz-se necessário revisitar o ontem. A influência musical partiu do pai, seu Benedito. O violão do velho inspirou a filha. "Achava bonito e tinha uma amiga que já tocava. Meu pai então me colocou na aula", lembra a saxofonista. Tinha, na época, 12 anos. As cordas silenciaram aos 14. Foi quando a menina enveredou-se a aprender percussão sinfônica e bateria no Centro de Educação Musical Municipal de Hortolândia. Encontrou-se no instrumento. Nesse tempo, além de estudar, "tocava na Banda Sinfônica Jovem".

 
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Primeiro porém: Lívia não é dada às agressividades. Após dois anos e meio, os braços sentiram. Prefere que a irmã conte. "Houve um princípio de LER", explica Aline. Lívia toma novamente as rédeas da conversa. Lembra-se da fala do médico: "Poderia piorar. Ou parava de vez ou mudava de instrumento". Repete: "Sabia que não ia parar..!". O jeito foi procurar um maestro, que lhe apresentou um cardápio de instrumentos. Claro, que não comprometessem os braços. De prontidão, sugeriu a trompa. Negado: "usava aparelho nos dentes. Então, por causa da embocadura, ficava difícil".

A partir daquele "não", escutou-se um sim. O instrumento era o saxofone. "Hoje não troco o sax pela percussão", adianta-se na escolha. Em compensação, no caso de Lívia, a relação com o saxofone não foi amor à primeira vista. "Era desastroso. Feio demais. Foi difícil.". Persistiu. Após cursar um ano de estudos no Centro, migrou-se para Conservatório de Tatuí. Na escola, estudou o instrumento por cinco anos e frequentou o curso de musicalização para educadores. Atualmente, entre o ritmo puxado de estudos por conta, faz especialização em sax no Conservatório. 

As graças
Quando se aprende a tocar saxofone, explica Lívia, a sensação paira sob o aluno. Chega a dizer para si mesmo: quero ser o Kenny G. A garota não fugiu à regra. Passeou por inúmeras vezes pelo repertório do norte-americano. "Hoje não aguento mais", faz questão de contar. Atualmente, revisitar Kenny G só se for em casamentos. Ao lado de seis amigas instrumentistas, a saxofonista fundou um grupo para este tipo de ocasião. No repertório, os clássicos resistem, como a Marcha Nupcial, mas os tempos são outros. "Já se pedem Guns N' Roses, sertanejo, pagode...". Gosto do freguês: "O que pedir a gente toca". Em paralelo, integra a Banda Jovem e o grupo VibraSax do Centro de Educação Musical Municipal de Hortolândia.

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As histórias de altar vêm como enxurrada. A amiga Dalette (com dois "t", enfatiza), que compõe a banda, ajuda: "A vez que a máquina de soltar pétalas emperrou ou do pai do noivo que morreu um dia antes do casamento", cita a tecladista. A saxofonista de Hortolândia tem as suas prediletas. Para começar, a da mãe do noivo que desaprovava o casamento "e foi de chinelo à cerimônia" ou quando, ao invés da noiva, os convidados tiveram de esperar a banda. "Nos perdemos no caminho e chegamos atrasadas", conta Lívia.

Acostumadas com as lágrimas das madrinhas, Lívia e Dallete foram convocadas a outro tipo de missão chorosa. Pode parecer piada, mas não é. "Nos chamaram para tocar no cemitério no dia de finados. Não tivemos coragem". Detalhe: uma apresentação de duas horas, em meio os túmulos. Apesar da dupla pedir cachê alto e ser aceito, o "não" precisou vigorar na resposta. "Não íamos tocar para a tristeza dos outros".

O voo
No Conservatório de Tatuí, Lívia conheceu o professor norte-americano Kenneth Radnosky. Após escutar a jovem tocar, o saxofonista a convidou para estudar nos Estados Unidos. Sugeriu as escolas onde dá aulas: New England Conservatory e Longy School of Music. A saxofonista ousou. Fez as provas para as duas e passou. Na primeira recebeu 30% de bolsa, na segunda 60%. Optou pela Longy, abrigada em Boston. Mesmo assim, as cifras do restante da mensalidade (que prevê os custos de moradia) chegam nas alturas da partitura. "Algo em torno de 27 mil dolares por ano". O curso são de dois.

Mesmo com as economias dos pais em jogo, a saxofonista não tem condições de aceitar a proposta. O tempo virou seu inimigo. Tem de se apresentar nos EUA em agosto. Não está de mãos em abano. Tentou patrocínio na Prefeitura de Hortolândia e empresas da cidade. A história é a mesma: "Se darmos a você, temos que dar pra todo mundo", repet. Não desiste: corre atrás. Apesar de uma pontada de desesperança, às vezes pensa com a cabeça de quando estiver lá: "Que vai ser difícil vai ser! Não vou ter o arroz com feijão".