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Cícero Lins é o resumo perfeito do atual momento da música brasileira. É uma mistura de referências longínquas e outras nem tanto assim: gosta de João Gilberto, acha Tom Jobim o “grande gênio”, é fã de Pixies e Sonic Youth. Faz suas músicas em um estúdio caseiro montado no seu apartamento e não tem gravadora. Vive de shows e seu disco de estreia pode ser baixado gratuitamente no site oficial. Vê o crescimento do interesse pela sua músicas por meio de “likes” no Facebook.
E comprova a ideia com frases como “a internet fez tudo praticamente sozinha”, para explicar o motor que o fez conseguir shows em Campinas, São Paulo, Belo Horizonte e outros lugares onde apresenta seu trabalho de estreia, “Canções de Apartamento”. Um título literal, afinal, o disco foi todo registrado em seu apartamento no Rio de Janeiro.
A gravação, aliás, apresenta mais uma faceta de parte da nova geração da MPB, a multidisciplinaridade. Cícero gravou violão, baixo, guitarra, pandeiro, tamborim, voz e piano. Bruno Schulz, parceiro da ex-banda Alice, dividiu o piano e tocou acordeon. “A música voltou a ser uma coisa de quem quer fazer música”, opina.
Lado A
Com 10 faixas, “Canções de Apartamento” pode ser explicado como o resumo de um período da vida de Cícero. Terminou o curso de Direito, viajou para Nova Iorque e de lá voltou com os equipamentos necessários para gravar o disco. Mudou-se da casa dos pais e adotou uma vida solitária para quem não estava acostumado a estar a maior parte do tempo sem outras pessoas ao redor. “(Eu tive) que lidar com uma coisa esquisita de estar só com você mesmo”: assim surgia o disco, das conversas mentais que Cícero tinha com... Cícero. E de deixar seu diploma de direito para trás e ter coragem de assumir que a música é o seu “lado A”, como explica.

O carioca, de 25 anos, acredita que a faixa de abertura do disco é o melhor resumo da obra. E explica os porquês: “é você aceitar que o bonito, o ideal está aqui do lado; a gente projeta a felicidade pra muito longe”. Não foi à toa que “Tempo de Pipa” ganhou o primeiro clipe da carreira solo de Cícero. Um plano-sequencia (sem cortes) gravado no bonde de Santa Tereza. Feito por amigos que estudam Cinema e hoje com 31 mil visualizações no Youtube.
Bossa nova sem tom saudosista
Quem vê o encarte virtual do disco, mal pode imaginar que para chegar as 10 faixas Cícero tinha 40 em mãos: 20 foram para a pré-gravação; 10 passaram pelo seu crivo afetivo, critério usado para iniciar as gravações. A música de Cícero soa como bossa nova sem tom saudosista, de quem assume que o estilo foi um mantra para construção da sonoridade, mas não se resume a dedilhar o violão como João Gilberto.
Com sua bossa nova repaginada, passa por São Paulo pela primeira vez na carreira. Nem com a antiga banda havia tocado: são quatro shows, sendo que a apresentação em Campinas será a 5ª da turnê de “Canções de Apartamento”. “Fiquei encantado (com o primeiro show na capital paulista), eu não sabia como era”, comenta.
Com Uira Bueno (bateria), Rodrigo Abud (baixo), Ricardo Gameiro (guitarra), Bruno Schulz (piano, acordeon e pandeiro) e Cícero Lins (voz e violão), a banda apresenta nos shows as 10 faixas de “Canções de Apartamento” (“eu não tinha como dar outro nome, era isso”). E se precisar de um bis, uma versão de “Barely Legal” do The Stokes é tocada.